CORDÉIS

Estudos

 

Universidad Privada de Santa Cruz de la Sierra

ALAIC – Associación Latinoamericana de Investigadores de la Comunicación
ABOIC – Associación Boliviana de Investigadores de la Comunicación
VI Congreso Latinoamericano de Ciencias de la Comunicación
del 5 al 8 de Junio de 2002
Santa Cruz de la Sierra, Bolivia

 

(GT – Folkcomunicación)
O Folheto de circunstância:11de setembro em cordel

Maria Alice Amorim
Jornalista,com especialização em
Teoria da Literatura pela UFPE
Membro da Comissão Pernambucana de Folclore
linguadepoeta@hotmail.com


Resumo - Embora estudiosos vaticinassem o desaparecimento do folheto de “acontecido” ante o avanço tecnológico dos meios de comunicação de massa, a literatura de cordel não perdeu o vigor também nesse tipo de temática. Uma prova é a quantidade de títulos surgidos, em todo o país, a partir dos fatos e desdobramentos do trágico 11 de setembro, e a conseqüente aceitação do público, apesar de toda a mídia ter explorado o assunto à exaustão. Tal realidade faz pensar sobre os motivos que levariam tanto o autor, quanto os leitores e ouvintes de cordel a procurar esta forma de expressão literária, mesmo quando não há mais novidade jornalística no acontecimento registrado.
É na oralidade, hábito entranhado nas diversas culturas folk, que repousa o traço ancestral das literaturas populares. Por isso, e por outras razões que adiante apresento, não podemos dizer que os meios de comunicação de massa vieram suprir, com exclusivismo, a necessidade do povo em abastecer-se de notícias, tampouco ocupar o espaço de fruição dessas mesmas notícias, quando transmitidas por meios de comunicação produzidos pelo povo, e para consumo próprio, mesmo se o tema é algum assunto que envolva o imediatismo do enfoque jornalístico ou a premência do calor da hora, tão bem facilitados hoje graças à velocidade e sofisticação das novas tecnologias, cada vez mais acessíveis aos extratos sociais pobres. Foi exatamente o que ocorreu com os folhetos escritos sobre os atentados de 11 de setembro de 2001, cometidos nos Estados Unidos. Embora fadado a fenecer sob o império dos mass media, segundo o vaticínio de especialistas na morte do cordel, foi exatamente aí que o folheto de circunstância provou que agrada, sim, aos leitores e ouvintes porque, perante eles, exerce um fascínio.
Justamente no fascínio encontra-se a cadeia de explicações. Todos os títulos pesquisados, os quais encontram-se listados no final deste texto, fazem menção à barbaridade dos ataques e contra-ataques que desmantelaram a “ordem mundial”, além de apresentar, deliberadamente ou não, o posicionamento ideológico do escritor, que, em parte dos folhetos pesquisados, lança mão do humor e da ironia para apimentar a discussão sobre o assunto. A partir de um estudo comparativo da abordagem escolhida pelos poetas para tratar o tema, o objetivo do trabalho consistiu em descobrir os elementos (jornalísticos, históricos, sociológicos, filosóficos, literários) que tornam atraente o folheto de circunstância, num momento em que os meios de comunicação têm poder de penetração no meio popular muito maior do que o cordel escrito até os anos 70 do século XX. Sem dúvida nenhuma, o formato tradicional, a rima, o ritmo, o metro, a ilustração da capa, a opinião do autor e a maneira particular de abordagem e interpretação do fato, tudo se transforma numa mistura fina, temperada ao sabor das metáforas e originalidade de cada poeta, cujo resultado é o deleite estético, o prazer do texto.
“Exercendo plenamente uma função de comunicação intermediária, o folhetos não são apenas informativos, mas também interpretativos, opinativos e de entretenimento”, é o que diz o folkcomunicador Roberto Benjamin. Evidentemente, a temática era por demais apelativa; aliás, a comoção mundial é um território movediço que suga a todos. Nesse rastro, intermediários entre os processos formais de comunicação e o auditório/leitorado, os poetas tinham mesmo que atiçar-se a criar, a reescrever a história, ainda que repisada de todos os modos pelos MM. Afinal, era a dicção poética, além dos recursos estilísticos possíveis na literatura de cordel, que deveria falar mais alto do que George W. Bush, quando empunhou o megafone, ante os escombros do World Trade Center, para encorajar a equipe de resgate, conforme vemos no desenho de capa do folheto de Arievaldo e Klévisson Viana. O formato tradicional do livrinho é, sem dúvida, um elemento de atração, sobretudo pelo apego às vivências de infância, freqüente entre os leitores de cordel. Contribuiu no chamamento a apresentação da capa, oferecida em diversas cores (predominaram as suaves: branco, amarelo, rosa, verde azul, creme), e com variedade de ilustrações (xilogravura, fotografia, fotomontagem, desenho com bico de pena e técnica mista).
As “fôrmas” poéticas, tão do agrado de consumidores de folheto, aliam-se à rima, ritmo e metro, quase completando o círculo de apelos – digo quase porque o tom com que o poeta trata o tema confere à obra o status de obra singular, atraente justo por peculiaridades impostas pelo criador, ou seja, pelo estilo do criador, associado à quantidade e qualidade de informações que detém. No âmbito da aceitação popular, as formas fixas propiciam a declamação, a memorização e a transmissão oral. É uma linguagem a que o povo está habituado a apreciar e, por isso mesmo, favorece o ato de apreensão da realidade. A maior parte dos folhetos analisados utilizou sextilha e septilha. A décima apareceu esporadicamente e uma oitava, apenas uma, foi feita por Stênio Diniz, em meio a estrofes de seis e sete linhas, com inabituais rimas cruzadas nas sextilhas. Os títulos indicam o maior ou menor esforço interpretativo dos fatos. Eis o que predominou: a relação dos atentados com o desencadeamento de uma terceira guerra mundial, e a polarização entre terrorismo talibã e americanismo.
As lições de história frutificaram. Quem já conhecia ou teve oportunidade de pesquisar sobre as relações dos Estados Unidos com o mundo árabe islamizado pôde elaborar um trabalho mais rico em informações históricas e em análise interpretativa. Foi o caso de Allan Sales, no folheto O império contra-ataca, que começa, veemente, com uma retrospectiva de massacres protagonizados pelos EUA, como a guerra do Vietnam, de Irã/Iraque, e a bomba atômica em Hiroshima. Segue descrevendo o terrorismo de estado, a hipocrisia de “jogar bomba e jogar pão”, para lançar perguntas sobre os métodos norte-americanos de dominação, para lançar um libelo de paz e, sobretudo, de repúdio a toda sorte de anti-humanismo. Músico e compositor do Crato, Ceará, radicado no Recife desde 1969, Allan recorre a tradição que não anda muito em voga para grande parte dos poetas populares: pega na deixa em todas as catorze estrofes (septilhas rimadas em ABCBDDB) para fazer, conforme próprio depoimento na contracapa do folheto, “uma reflexão sobre a resposta dos EUA aos atentados de 11 de setembro. O império mais uma vez impõe a todos sua ‘pax romana’, com conseqüências imprevisíveis”. O autor faz uma leitura sociológica dos fatos, relaciona dados históricos, expõe e condena a ideologia da dominação americana sobre o mundo. É um folheto extremamente politizado.
O poeta Pedro Américo, igualmente interessado em politizar o debate, analisa os fatos a partir de dois personagens emblemáticos: Osama e Bush. Expõe as relações escusas entre Osama bin Laden e a família Bush, desde a época em que Laden foi treinado pela CIA para defender os interesses americanos no Oriente Médio, durante o período de dominação da União Soviética naqueles territórios, em plena Guerra Fria: Tio Sam criou Osama / para combater o comunismo. A partir desse enredo de cobras de mesma ninhada, e de feitiço vertido contra o feiticeiro, o poeta critica as políticas de dominação americana e sai em defesa do humano e das relações sociais justas. São quinze estrofes, doze em septilhas (rima em ABCBDDB) e três décimas (ABBAACCDDC), em que também sobressai a denúncia do terrorismo de estado, apontada como tão ou mais grave que o terrorismo de grupos religiosos manipulados por interesses de lideranças espúrias. As décimas, utilizadas normalmente em fictícias pelejas de cordel, são usadas para finalizar a história cujo título, um mote setissílabo em duas linhas (A dolorosa peleja de Osama bin contra Bush), poderia sugerir a possibilidade de haver glosa, principalmente pela presença dos versos de dez linhas. O título é, ainda, sugestivo, dentro dessa argumentação, porque usa a palavra peleja, entretanto não a oferece no sentido estrito da palavra. Assim, há a ocorrência deliberada de três indicativos de um gênero de cordel que, afinal, não se concretiza. Entretanto, o recurso é um jogo de palavras extremamente elaborado e lúdico.
É em tradicionais sextilhas rimadas em ABCBDB e metrificadas com esmero nas 59 estrofes distribuídas por 16 páginas que os irmãos Arievaldo e Klévisson Viana, do Ceará, apresentam o folheto publicado dois dias após a tragédia, numa clara convicção de que o assunto merecia ser explorado por cordelistas e, mais, que seria muito bem aceito pelos leitores e ouvintes. É um apelo à paz, não sem antes discorrer sobre as guerras no Oriente Médio e as responsabilidades do Ocidente nesses conflitos; sobre a bomba atômica lançada pelos EUA sobre Hiroshima e Nagasaki; sobre a prepotência dos impérios, a exemplo do romano, otomano e, claro!, o americano; sobre a inteligência humana dirigida para as guerras, para o mal. Por ter sido publicado logo depois dos fatos, o folheto expõe as hipóteses de autoria dos atentados veiculadas nos jornais – talibãs, direita americana, Ku-Klux-Klan. Lança-as, porém sem querer induzir a nenhuma delas.
O poeta Olegário Fernandes, de Caruaru, infelizmente falecido na semana passada (03/04/2002), condena a fome, seca, carestia e, por cima de tudo isso, alarma-se com a iminência de uma guerra mundial, creditando ao americano forte, rico e potentado / e a metade do mundo / por ele é dominado a dura constatação de colher no presente / o que plantou no passado. Guaipuan Vieira também exorta: quem planta o mal colhe o mal / é a lei da recompensa. Stênio Diniz alerta, já no título, para os perigos de uma terceira guerra, e não se ilude acerca das causas: os modelos econômicos / precisam ser repensados / não se pode admitir / universo de explorados / é tempo de refletir / ou seremos arrasados. Marcelo Soares, que herdou do pai, o poeta-repórter José Soares, o gosto pelos folhetos de circunstância, alerta para uma provável guerra do fim do mundo, protagonizada pelos talibãs e os Estados Unidos, “o grande Satã”.
Um outro fascínio causado pelo livrinho noticioso é o repórter cordelista Paulo de Tarso quem resume na última estrofe do folheto Da ficção à realidade: Nova York em chamas. Diz a sextilha: Aqui foi outro resgate / do poeta cordelista / que também é um repórter / igual a um jornalista / mas narrando diferente / do jornal e da revista. É exatamente pela diversidade de linguagens que os diferentes meios de comunicação não engolem uns aos outros. Para cada mídia, é necessário um tratamento específico da notícia. Assim, o fato jornalístico em cordel ganha contornos próprios com a versificação, acrescido do charme da linguagem poética, que, para ser identificada como tal, exige a construção de imagens. É necessário ressaltar que, se um lead bem elaborado segundo a resposta àquelas cinco questões cruciais, tão caras ao registro do fato jornalístico (que, quem, quando, como, onde e por quê) é fundamental na captura do receptor, no folheto são as metáforas que iniciam e permeiam o texto o que mais cativa o consumidor de cordel. Nenhum poeta começa um bom folheto indo direto ao assunto, sem acrescer um charme estilístico. Faz parte do enfeitiçamento invocar as musas, pedir inspiração aos deuses, ressaltar sentimentos de dor ou alegria, valer-se de lições bíblicas e sabedoria popular.
É a função estética do folheto um elemento de atração, da qual um dos resultados é o ludismo, o entretenimento. Daí a importância do modo como o poeta inicia os versos. Que Alá seja por mim / concedendo inspiração / como deu a Maomé / no momento do Corão / para que meus toscos versos / não tenham fins tão perversos / e nem causem comoção. Assim começa José Honório, em tom solene, invocando a proteção religiosa, os nomes de Alá e Maomé, a sapiência do Alcorão. Tudo passa nesta vida, / nada é novo sob o sol. / Nos diz o Eclesiastes / o maior livro do rol, / do Antigo Testamento / lindo como o arrebol. Assim começam Arievaldo e Klévisson Viana, exaltando a sabedoria bíblica, na tentativa de comover pelo argumento religioso, um forte argumento em situação de iminência de guerra. A força do mal ataca / outra vez este planeta / a chama da violência / traz uma luz violeta / que se apaga a cada instante / pelo som horripilante / surgida duma corneta. Assim começa Guaipuan Vieira, numa franca alusão às trevas do Apocalipse e à trombeta anunciadora do final dos tempos. Uma vez mais, o argumento religioso ecoa; o que não é novidade, graças à religiosidade dos autores e público de cordel. O destino é uma curva / fechada na contramão / filho de gato é gatinho / e quando cresce é gatão / mãe e pai azunha e mata / nem Alá que é Deus empata / fanatismo e obsessão. Assim começa o poeta Pedro Américo, contra-invocando a divindade, porque, embora a prerrogativa de onipotência, não livra a humanidade do fatalismo do destino em contramão, nem dos sentimentos impuros de “fanatismo e obsessão”.
Graças à iminência de uma guerra devastadora, e sob forte apelo à religiosidade popular, é recorrente o tom de admoestação, de invocação de preceitos morais, de alusão aos ensinamentos bíblicos e à sabedoria proverbial. É solene o tom de advertência. Para não perder a oportunidade de escrever sobre o tema, José Honório publica o folheto um mês após os atentados e, por isso, solicita a Alá que também receba os halos / do espírito picaresco para escrever uma história bem-humorada, após repassar os tópicos da tragédia de setembro. Ao terminar a narrativa da história do português que planeja um atentado contra o Congresso Nacional, em Brasília, exatamente por repudiar as piadas discriminatórias contra os lusitanos, o poeta retoma o discurso antibelicoso, antifanatismo, e em favor da democracia, da justiça e da paz. É importante ressaltar que o posicionamento do autor do folheto é sempre importante para marcar a diferença e, o que é melhor, o cordelista pode discorrer livremente sobre o assunto, expondo as próprias opiniões, crítica e análise, com a liberdade que os MM não têm, com a isenção que os MM não podem oferecer.
Longe de ser um método ineficaz de comunicação, ou um objeto de criação desprovido de valor literário, os folhetos publicados sobre o fatídico 11 de setembro atraíram, para si, não só as atenções de leitores e ouvintes, também as atenções da mídia impressa e eletrônica, levando à produção de diversas matérias, artigos e reportagens. Os canais de televisão levaram o assunto à cadeia nacional, inclusive a outras partes do mundo por meio do sistema de TV a cabo. Os periódicos do Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, a exemplo do Correio Brasiliense, O Globo, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo, entrevistaram poetas e pesquisadores, reproduziram trechos de folhetos, a capa de folhetos, fotografaram poetas. Num franco exemplo de metajornalismo ou metacomunicação, jornais de outras regiões e todos os jornais do Recife divulgaram a vitalidade do cordel de acontecido.
O que é um folheto de acontecido – Os estudiosos que se preocuparam em elaborar classificações temáticas dos folhetos de cordel catalogaram uma modalidade usada com freqüência por determinados autores. É a que registra as notícias, como a morte de Getúlio Vargas, o menino que foi comido pelo leão do circo Vostok, um desastre de ônibus em Tacaimbó, as cheias do Capibaribe e as secas do sertão; enfim, acontecimentos que, mesmo apresentados em versos, são vistos sob a perspectiva do jornalismo. Com grande aceitação popular, alguns dos tais folhetos chegaram a surpreender pelo tamanho das tiragens. Conforme o pesquisador Roberto Benjamin, “João José da Silva chegou a produzir 200 milheiros de um único folheto de atualidade, sobre a morte do presidente Getúlio Vargas. Olegário Fernandes da Silva disse ter feito 24 milheiros d’A morte do coronel Ludugero”. Um poeta, ao identificar-se intuitiva e plenamente com essa modalidade, passou a auto-denominar-se “poeta-repórter”. Foi o paraibano José Francisco Soares (1914 – 1981), radicado em Pernambuco desde1949, quem publicou, dentre outros títulos, Ludugero, morto ou vivo?, A cheia do Capibaribe, A gripe inglesa passeando no Brasil, O homem na lua, A morte de Juscelino Kubistchek.
Na classificação popular, coletada por Liêdo Maranhão, encontramos o folheto de acontecidos ou de época, cuja característica “é o seu aspecto jornalístico” e os poetas mais representativos são “Joaquim Batista de Sena, do Ceará; Rodolfo Coelho Cavalcanti, da Bahia; José Soares, do Recife; e Francisco de Paula”, conforme registra Liêdo. Nos ciclos definidos por Ariano Suassuna, situados a partir de dois grandes grupos por ele propostos (o tradicional e o de “acontecido”), há o ciclo histórico e circunstancial. Para Roberto Benjamin, os fatos de época ou de acontecido são classificados como folhetos informativos. Na classificação de Manuel Diégues Júnior, os fatos circunstanciais ou acontecidos subdividem-se naqueles de natureza física, repercussão social, cidade e vida urbana, crítica e sátira, elemento humano. Orígenes Lessa considera os casos de época dentre os temas efêmeros que não sobrevivem a reedições. No catálogo de literatura popular da Casa de Rui Barbosa, basicamente elaborado por Cavalcanti Proença, tais folhetos encaixam-se na categoria “reportagem”.
Verificando a carga de tradição oral, o volume de informações, a familiaridade do poeta com esquemas de rima, ritmo e metro, a força poética das metáforas criadas por aqueles que são considerados, erroneamente, de poetas menores, não é possível render-se ao argumento simplista de que essa é uma literatura de produção pobre, sem complexidade. Além da importância comunicacional, que não se intimidou com a rápida evolução das tecnologias, é indiscutível a literária. Estão em jogo valores estético, pedagógico, lingüístico, sociológico, histórico, psicológico e filosófico, que não podem ser absolutamente desprezados, embora os compêndios continuem com o mesmo erro, ao considerá-la de pouca ou nenhuma importância. “No fim de contas, o desprezo ou esquecimento da literatura popular representará sempre o esquecimento e o desprezo do homem popular. E não se pense que isso é apenas um problema político, porque é também um problema científico e um problema estético”, adverte o professor e ensaísta português Arnaldo Saraiva. Ao invés de engolido pelos meios de comunicação de massa e novas tecnologias, e contra toda sorte de desprezo, o folheto vem interagindo, assimilando as mudanças, transformando os media em tema das narrativas e recursos favorecedores da continuidade, sem deixar desaparecer, felizmente, também os folhetos de acontecido ou de circunstância.
Bibliografia
1. Folhetos pesquisados:
DINIZ, Stênio. Terror nos Estados Unidos “Os perigos de uma 3ª guerra mundial”. Juazeiro: ed. autor, 2001.
FARIAS, Pedro Américo de. A dolorosa peleja de Osama bin contra Bush. Timbaúba: Folhetaria Cordel, 2001.
SALES, Allan. O império contra-ataca. Recife: ed. autor, 2001.
SILVA, José Honório da. O atentado terrorista e o desmantelo da guerra. Timbaúba: Folhetaria Cordel, 2001.
SILVA, Olegário Fernandes da. O atentado terrorista e o nosso sofrimento. Caruaru: ed. autor, 2001.
SOARES, Marcelo. A guerra do fim do mundo entre o povo talibã e os Estados Unidos que para eles são tidos como o “Grande Satã”. Timbaúba: Folhetaria Cordel, 2001.
TARSO, Paulo de. Da ficção à realidade “Nova York em chamas”. Fortaleza: ed. autor, 2001.
VIANA, Arievaldo e Klévisson. O sangrento ataque terrorista que abalou os EUA. Fortaleza: Tupynanquim, 2001.
VIEIRA, Guaipuan. Estados Unidos em chamas (um aviso para o mundo). Fortaleza: ed. autor, 2001.
2. Livros consultados:
BENJAMIN, Roberto. Folkcomunicação no contexto de massa. João Pessoa: ed.Universitária, 2000. 150 p.
_______. “Os folhetos populares e os meios de comunicação social”. Symposium: Revista da Universidade Católica de Pernambuco. Recife, ano XI, nº 1, set./69.
CAMPOS, Geir. Pequeno dicionário de arte poética. Rio de Janeiro: Ouro, 1965.
DIÉGUES JÚNIOR, Manuel. Ciclos temáticos na literatura de cordel. In: Literatura popular em verso. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1973. Estudos, tomo I. p. 1-151. (Col. de textos da língua portuguesa moderna, vol. 4)
SARAIVA, Arnaldo. Literatura marginal-izada. Porto: Roca Ares Gráfica, 1975. 172 p.
SOUZA, Liêdo Maranhão de. Classificação popular da literatura de cordel. Petrópolis: Vozes, 1977. 104 p.
---------------------------------------------------------------------------------

LITERATURA DE CORDEL

COM JORNALISMO POPULAR

Módulo I

MONOGRAFIA

UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ
CURSO: COMUNICAÇÃO SOCIAL (Jornalismo)
DISCIPLINA: SISTEMA BRASILEIRO DE COMUNICAÇÃO
PROF. GILMAR DE CARVALHO
ALUNO: Gerardo Carvalho Frota (Pardal) (*)
TEMA: LITERATURA DE CORDEL COMO JORNALISMO POPULAR
(Este estudo será feito por fascículos, devido o seu tamanho.
Este é o primeiro módulo).

Fortaleza, novembro de 1988.

DEDICATÓRIA:

Este trabalho eu dedico
Ao poeta popular
Cordelista cantador
Que com seu vate exemplar
Vão marcando este nordeste
Com uma cultura inconteste
Que nunca vai se acabar!

A todo pesquisador
Da cultura popular
Que nela valor descobre
E bem sabe conservar
O cordel como jornal
Do campo e da capital
Das terras do além-mar!
INTRODUÇÃO:

Tratar da Literatura de Cordel, como Meio de comunicação social, enquanto jornalismo popular requer, antes de tudo, uma consideração desta produção humana como Literatura. Neste sentido, a produção de cordel é a representação de uma sociedade em todo os seus aspectos. Neste trabalho, daremos especial acento à literatura de cordel pelo fato de ela surgir e ser sustentada pela base. E ainda por ter como autor e destinatário principal o povo, a base. Referimo-nos às camadas sociologicamente pobres.

Pela estreita ligação com a sociedade e como o homem, esta literatura aparece como a expressão resultante do poder criador do homem condicionado pelo poder modelador da sociedade. Todavia, a história nacional nos testemunha a tenacidade e a força do cordel, superando o poder modelador, graças à sua índole de Meio de Comunicação Social.

Pelo caráter comunicador da literatura de cordel, esta produção cultural (e jornalística) está presente em todas as partes do país e nas mais diferentes camadas da sociedade. Apesar de não se desvincular de suas bases, seio de comunicação popular, a literatura de cordel está sendo usada para veicular uma série de mensagens, geralmente aquelas que encerram conteúdo jornalístico.

Em plena mudança de século e milênio a necessidade de comunicação vem sendo suprida pelo sistema de informação da Idade Média européia. Hoje, centenas de cantadores, poetas de bancadas (cordelistas)e folheteiros, exatamente como os antigos menestréis, informam às populações marginalizadas, rurais e periféricas, de tudo o que lhes possa interessar. Este potencial comunicador, que atinge a massa, o indivíduo e, hoje, o mundo intelectual, se faz, em termos de comunicação, ao lado da imprensa oficial e canonizada pelo poder modelador da sociedade e das expressões literárias.

Para facilitar o seu desenvolvimento, o presente trabalho será dividido em três partes

Na primeira parte, veremos a tentativa de definição do que seja jornalismo popular. Colocaremos sem discussão os tipos e características do jornalismo popular e, a partir daí, situaremos a literatura de cordel.

Na segunda parte, abordaremos o cordel como jornal noticioso, a partir da conceituação mais satisfatória de "notícia", formulada por F. Fraser Bond, onde tentaremos localizar o cordel dentro das propriedades aplicadas aos Folhetos Noticiosos.

Na terceira e última parte, falaremos da influência sobre e a partir da literatura de cordel, envolvendo o rádio, a televisão e a grande imprensa.

Enfim, tentaremos deixar o leitor convencido de que a literatura de cordel foi o Meio de Comunicação Social primeiro a veicular, sobretudo nas zonas rurais e com o passar dos tempos invadiu o meio urbano. Foi o primeiro e o é ainda hoje. Se não o convencermos disso, tentaremos deixar, pelo menos, o interesse por um aprofundamento maior no assunto.

PARTE 1

JORNALISMO POPULAR

Há muitas tentativas de definir o que seja Jornalismo Popular. Contudo, em seu artigo " A Comunicação dos Bispos, C. Eduardo Lins da Silva coloca três tipos diferentes de Jornalismo Popular.

1."Publicações que defendem os interesses das classes trabalhadoras, mas não as têm nem como produtoras nem como destinatárias".

2."Publicações que defendem os interesses das classes trabalhadoras e que, embora não sejam produzidas por elas, são a elas destinadas preferencialmente".

3."Publicações que defendem os interesses das classes trabalhadoras e as têm como autoras e destinatárias principais". (Ver. Comunicação e Sociedade, n. 12, p. 30)

Diante desta classificação onde situamos a literatura de cordel, como jornalismo popular? O cordel satisfaz à definição constate no item "3".Muito embora não se possa dá total ênfase concreta ao que Lins da Silva considera como "defender os interesses das classes trabalhadoras". Isto porque os autores(poetas e cantadores), embora sendo da classe trabalhadora, do povo, não defendam explicitamente os seus interesses. Porque não são politicamente conscientizados No sertão, estes autores normalmente são conhecidos, amigos, vizinhos das autoridades civis e religiosas do local. Portanto, as suas posições geralmente não são antagônicas à situação estabelecida. Isto é, não colocam, pelo menos de maneira clara, os anseios de mudança da situação de opressão existente. Apesar disso, é bom lembrar que o poeta arranja uma saída para denunciar a opressão vivida pelo trabalhador. Tal saída consiste no uso de termos figurados(metáforas) "que possam dar vazão a eventuais formas de reclamação"(Josefh M. Luyten, 1984).

Quando, porém, o poeta se desloca para os centros urbanos ou neles surgem, fica livre destas amarras locais e passam a se expressar com mais liberdade. Deste modo, é mais explícita sua forma de contestação.

Com exemplo, podemos citar a denúncia do poeta Otávio Menezes ao péssimo salário do policial militar. Quando de uma visita à cadeia, o comandante provoca o seguinte diálogo:

 

" – Veja o que você fez
Com isso soldado João
Colocou nossa Polícia
Numa péssima situação
Nos levando ao ridículo
Perante toda a Nação.

João nisso lhe responde:
Sem sentido pra o senhor
Filho de boa família
Precisão nunca passou
E agora é um comandante
Com um soldo de valor.
O que ganho da Polícia
Não dá nem pra mim viver
A não ser que eu fizesse
Como eu vi gente fazer
Pescar o roubo depois
Para um amigo vender."
( A estória do Soldado que foi detido
porque pediu esmolas fardado, 05/86).


Entretanto, o poeta não fica totalmente livre para expressar o seu pensamento. Ele se depara como o poder da polícia. Tem que ter muito cuidado com as palavras. Exemplo disso, tivemos recentemente a prisão em Juazeiro do Norte de poetas populares por haverem falado contra o governo da situação.

Portanto, embora, não se possa "exigir do povo maturidade e atuação política" (J. Luyten, 1984), a literatura de cordel está cada vez mais conquistando espaços no desempenho da sua função de defensora da classe oprimida.

Quanto às características, o Jornalismo Popular deve ser "uma publicação de uma ou várias folhas, ter certa regularidade, formato estabelecido, apresentação própria, povo gerador e ator de informações e destino das massas"(J. Luyten, 1984). Aplicando cada uma destas características à literatura de cordel, podemos afirmar que:

1. Quanto à "certa regularidade", o cordel não a possui, visto que não existe previsão de tiragem futura, isto é, não existe uma periodicidade estabelecida.

2. Quanto ao formato, a literatura de cordel possui já estabelecida um formato padrão: 1/4 de folha de papel ofício com números pares de páginas. "Os que contêm apenas oito páginas são chamados folhetos. de 16 páginas em diante(24,32,48,64) denominam-se romances"
(Antologia de Literatura de Cordel, 1983).
3. A literatura de cordel possui uma apresentação própria.

4. O cordel tem como gerador e ator o próprio povo (representado por alguém do seu meio), embora com todas as limitações já mencionadas anteriormente.

5. Por último, a literatura de cordel tem como destinatário principal povo, a classe o primida. Portanto, segundo, Josefh Luyten, por faltar o caráter da publicidade, o cordel é preferencialmente noticioso, em vez de jornalístico. Embora, conforme sua definição de jornalismo popular, Lins da Silva inclua o cordel noticioso nesta área. O que ainda deverá demorar algum tempo para que esta literatura se converta numa incondicional defesa dos desejos do povo.

1988.(*) – Poeta, cordelista, escritor, autor do livro "Francisco do Povo, ontem e hoje, editado pela editora Vozes. Estudante de Comunicação Social, habilitação em Jornalismo. Formado em Filosofia,pós-graduado (lato sensu) em Tecnologia Educacional. Autor de vários folhetos e romances de cordel. Secretário do Centro Cultural dos Cordelistas do Nordeste –CECORDEL.
CORDEL: "JORNAL NOTICIOSO" - MÓDULO II

Tomando como satisfatórias as características de"notícia, sublinhada
por F. Fraser Bond em sua definição, podemos considerar como Jornal Noticioso. Senão vejamos: Fraser Bond define notícia como sendo "reportagem oportuna (grifo nosso) sobre as coisas de interesse para a humanidade e a melhor notícia é a interessa ao maior número de leitores" (J. Luyten,1984). Nesta definição, Fraser coloca 4 elementos que valorizam a notícia :
1. OPORTUNIDADE : a Literatura de Cordel não tem a atualização do fato relatado como um elemento sempre presente, com exceção de alguns como o relato do Tricapeonato da Seleção Brasileira em 1970 de José Soares. O "poeta-repórter" já estava à venda meia hora depois que terminou o último jogo. Apesar disso, o Cordel serve como reafirmação no meio do povo do fato divulgado antes por outros meios. Muitas vezes, o povo da zona rural, sobretudo, acredita mais no que é noticiado pelo poeta ou pelo folheteiro de feira do que no que a pequena ou grande imprensa divulga.
2. PROXIMIDADE : neste caso, a Literatura de Cordel noticiosa se identifica com o jornalismo Popular. Aqueles acontecimentos que estão mais ligados ao homem do povo são os que mais a ele interessam. Exemplos disso temos: "As Cheias de Recife e os Lamentos do Povo", de José Soares; "O Inferno no BANFORT","
Mainha,o maior pistoleiro do Nordeste", de Guaipuan Vieira; A História do desastre do Avião na Serra de Aratanha", de Gerardo T. dos Santos; "Novos ataques do Negrão Corta- bunda" no conjunto J. Walter, de Otávio Menezes; entre outros.
3. TAMANHO : aqui, é muito relativo no cordel. Vai depeder da extensão do acontecimento.
4. IMPORTÂNCIA: este aspecto se limita aos leitores/ouvintes. É certo que o poeta de ter em mente que valerá a pena escrever mais uma "edição do seu jornal" se o fato realmente tiver importância para o seu público. É sempre o que acontece quanto aos folhetos circunstanciais.
Enfim, no folheto noticioso estão sempre presente alguns aspectos do interesse na notícia, referidos por F. Fraser. Dentre eles podemos citar: " dinheiro, sexo,conflito, expectativa, crime, culto,culto do herói e da fama (...)" (J. Luyten, 1984. Diríamos mais: tragicidade, entretenimento etc.
Portanto,consciente ou não o poeta popular, como porta-voz do povo, coloca todos estes elementos nos seus folhetos e assim dosará bem o seu relato para que o seu público específico fique satisfeito.

Literatura de Cordel como Jornalismo Popular

Módulo III]

INFLÊNCIA SOBRE E A PARTIR DA LITERATURA DE CORDEL

Influência do rádio sobre a Literatura de Cordel
O rádio, pela sua penetração nos pontos mais longínquos do sertão, foi "o primeiro ‘mas mídia’ a abalar os domínios exclusivos da Literatura de Cordel"" (M. Marta G. Hussein in J. Luyten, 1984). Não resta dúvida que o rádio tem muito mais audiência que o cordel escrito pelos poetas ou cantado pelos violeiros.

No campo da notícia ou informação, o rádio não chega a concorrer com o cordel. O que ocorre sempre é que o cordel tem no rádio uma segura fonte para suas notícias.

Podemos citar o caso contado por Pe. Matusalém: o poeta João Alexandre estando nos estúdios de uma rádio com seu programa de viola, foi interrompido pelo repórter que noticiava em caráter extraordinário a morte do Papa João XXIII. Tão logo a notícia acabou, o poeta repetiu o relato em linguagem popular, acrescentando nos seus ouvintes uma opinião, nos seguintes versos:

"Às três horas da tarde, três de junho".
Morreu João vinte e Três no Vaticano
O maior instrumento italiano
Um Apóstolo de Deus e testemunho
Tendo papa no nome como alcunho
Conservamos seu nome na memória...
Sendo Papa da Paz, teve a História
O maior conselheiro mundial
No Concílio Ecumênico Universal
Trouxe, às seitas do mundo, a sua glória"( J. Luyten, 1984).


B) Influência da Literatura de Cordel sobre o rádio

Neste caso, temos constatado que cresce o número de programas de rádio que incluem apresentações de cantadores e repentistas ou cantorias de folhetos de cordel. É certo que o Cordel não influencia o rádio a ponto de alterar a sua essência. Contudo, graças, inclusive ao cordel, o rádio está cada vez mais se regionalizando. Como exemplo, tivemos um "Curso de Cantoria Popular" (aulas radiofônicas) promovido pelo então MEB (Movimento de Educação de Base) da Arquidiocese de Fortaleza, emitido pela Rádio Assunção Cearense no período de 23 de fevereiro a 28 de dezembro de 1979 (aulas semanais, nas sextas-feiras das 18h às 19h). Certamente foi uma experiência pioneira e única em termos de divulgação específica da Literatura de Cordel através da emissão de 21 aulas abordando os diversos estilos do cordel bem como a origem da poesia, do cantador e da viola emissão de
21 aulas abordando os diversos estilos do cordel bem como a origem da poesia, do cantador e da viola entrai outros assuntos. "O curso foi de modalidade indireta, caracterizado pelo orientador em estúdio, utilizando-se do rádio como veículo de comunicação à distância" (Poesia, Cantador e Viola, 1980). Como exemplo mais próximo, temos os casos de algumas rádios do interior (como assim faz a Rádio Vale do Jaguaribe de Limoeiro do Norte(CE), - onde tivemos a oportunidade de participarmos com um recital de cordel – e tantas outras até mesmo nas capitais que veiculam diariamente programas com cantadores e repentistas. Aqui em fortaleza, temos na Ceará Rádio Clube um programa de viola diário das 18 horas às 19 horas, com o repentista Rubens Ferreira. Em Pajuçara – Maracanaú – o poeta Cezanildo tem um programa diário de viola à tarde. Em Teresina (PI) o poeta Pedro Mendes Ribeiro há mais de vinte anos faz um programa de viola "Sertão por dentro e por fora", na rádio Pioneira de Teresina. Como estes há vários programas por este Brasil a fora, onde a poesia do cantador e do cordelista tem um espaço.

C) Influência da TV sobre a Literatura de Cordel (e vice-versa)

Embora a televisão não tenha tanta penetração nas regiões rurais, como o rádio, neste últimos anos, graças à eletrificação e a migração (êxodo rural) o povo está engrossando a fileira dos telespectadores.

Motivada por isto, a TV exerce e recebe influência cada vez maior sobre a Literatura de Cordel. Basta verificar a tendência crescente de produções de programas sertanejos como "músicas caipiras" e com apresentação ao vivo (ou gravadas) de cantadores e poetas de cordel. Como exemplo citamos, a nível nacional "Violas da Minha Terra", que sempre está aberto à exibição do trabalho dos repentistas e violeiros e a nível local, o Programa "Ceará Caboclo", com Dílson Pinheiro, aos domingos pela TV Ceará, canal 5, onde o cordelista tem um quadro exclusivo para as suas apresentações. E outros como, "Nordeste Caboclo", com Carneiro Portela na TV Diários, e na Tv Jangadeiro o repentista Geraldo Amâncio apresenta todo sábado às 8 horas.

Como no rádio, o poeta popular encontra na TV subsídios para seu trabalho noticioso ou jornalístico. Ele decodifica a mensagem da TV e passa em linguagem popular para o povo. Tal linguagem é que "vai importar em última instância para o leitor específico de seus folhetos" (Josefh Luyten, 1984, no quais colocam sua cresdbilidade em primeiro lugar).

Quando à influência do cordel sobre a Televisão, Maria Marte G. Husseini afirma, em seu trabalho, que aquele não chega a exercer influência sobre esta. Todavia, como dissemos anteriormente, a TV nos últimos anos tem dado maior atenção à existência do cordel como fator de audiência, sobretudo quando produz programas sertanejos, abrindo, assim, espaços para a literatura de cordel.

D) Influência da Imprensa sobre o Cordel

À diferença dos Mass Média analisados anteriormente, a Imprensa é que mais exerce sobre a literatura de cordel uma forte influência. O jornal, como meio tradicional mais antigo que o rádio, foi o grande responsável ( e o é ainda hoje) pela inspiração do poeta popular para a feitura do folheto de cordel (ou do cantador para a elaboração dos eu repente).

Segundo Maria Marta G. Husseini, a imprensa influencia o cordel obedecendo três linhas:

"a) influência estilística;

b) transcrição jornalística e

c) influência quanto à fonte" (J. Luyten, 1984)

Na primeira linha, o poeta é o próprio repórter. O folheto ou "romance" é o próprio jornal. Caracteriza-se pelo estilo jornalístico, abundância de detalhes e precisão das datas e locais. Podemos exemplificar com estes versos do poeta Guaipuan Vieira, atual presidente do Centro Cultural dos Cordelistas do Nordeste – CECORDEL:

 

"Este fato teve início
Por volta das onze e trinta
Num dia de quinta feira
No verão que se requinta
Do ano 87
De grande seca faminta.

Duma agencia do BANFORT
No centro da Ca´pital!
Os vinte irmãos assaltantes
Provocaram um vendaval!
O crime que mais marcou!
Na área policial"
Guaipuan,"Inferno no BANFORT
cinco horas de terror, 1987).
E assim a precisão de detalhes e localização geográfica nos

folhetos noticiosos é bastante clara. Vejamos:

“Hospedei-me em Pimenteira!
Depois em Alagoinha
Cantei em Campo Maior
No Angico e na Baixinha!
De lá tive um convite!
Para cantar na Varzinha”
Quando cheguei na Varzinha
Foi de manhã bem cedinho
Então o dono da casa
Me perguntou com carinho
Cego, você não tem medo!
Da fama de Zé Pretinho?”(Firmino T. do Amaral, “peleja do Cego Aderaldo Com Zé Pretinho”, 05/82).

Quanto à segunda linha de influência, há poeta, mesmo sem abandonar os versos e a rima, que consegue tirar da notícia veiculada no Jornal a sua versão em linguagem popular. Eis um exemplo: “A notícia divulgada!

Foi num jornal de Turim
Uma cidade de Roma
Num conhecido Pasquim
Chamado de ‘La Stampa’!
Que narrou o fato assim:

‘Hoje um padre deu fim
Ao seu sexo natural
Era um homem e operou
A sua parte sexual
Como quis virou mulher /
No resultado final”
(F. Otávio de Menezes, “O Padre que virou mulher -depoimento completo, 1988)

Na terceira linha, o poeta encontra no Jornal, na Imprensa todos os detalhes da notícia. Todavia, ele, recriando esta mesma noticia, elabora-a na linguagem universal dos seus leitores:

“Na entrevista coletiva
Que deu a todos jornalistas!
Alguns internacionais
De Tvs e de revistas!
Tancredo deu seu programa
Deixou a todos otimistas”.
“Com todo apoio nas mãos
Tancredo vai atacar
Os problemas mais prementes
Que estão a nos abalar!
Depois de muito combate
Tudo vai se equilibrar”

(Sá de João Pessoa, “A Vitória de Tancredo Neves
01/85)
E) Influência da Literatura de Cordel sobre a Imprensa

Neste aspecto, o Cordel não influencia a Imprensa quanto ao estilo. Mas do ponto de vista do interesse do Jornal, notamos a freqüência de citações sobre certos assuntos escritos em Cordel. Exemplo disso tivemos, há cerca de um ano, a am­pla divulgação por todos os jornais desta cidade do livro escrito em cordel sobre São Francisco de Assis, de minha autoria. Talvez tenha sido causa desta ampla divulgação dois fatores: a) ter sido o primeiro livro sobre o Santo do Nordeste brasileiro escrito em cordel e b) ter sido editado por uma Editora de projeção nacional como a VOZES. O que é bastante raro um escritor cearense logo como estreante conseguir editar seu livro fora do âmbito da “província”. Verdade ou não tivemos um exemplo cabal da influência do cordel sobre a Im­prensa. Além deste exemplo local, tivemos no final de 1986 e início de 1987, a publicação de 10 entrevistas com poetas populares e cantadores ao jornalista Gilmar de Carvalho, pesquisador e professor da Universidade Federal do Ceara. Todas veiculadas pelo Jornal da Manhã sediado em Teresina (PI).

Em suma, podemos concluir que existe nitidamente um crescente interesse de parte dos Jornais pela divulgação da Literatura de Cordel. Não só isso. Os jornais tradicionais tendem a “se utilizarem da Literatura de Cordel como referencial e fonte de informação” (J. Luyten, 1984).

 

CONCLUSÂO

Este meu trabalho teve
Por real finalidade
Mostrar que a Literatura
De Cordel é na verdade
Jornalismo Popular
De cunho bem singular
Que atinge à comunidade.

Nós vimos que é preciso
Pra ser Jornal Popular
Ter o povo como autor
E a ele se destinar.
E o Cordel bem satisfaz
Esta exig6ncia demais
Por isso é dele exemplar.

Da notícia Fraser Bond
Deu grande definição
E disto a Literatura
De Cordel não foge não:
Tem tamanho proximidade
Importância e novidade
Mesmo sem atualização.

Mostramos as influências
Que o Cordel recebe e dá
Da Imprensa, rádio e TV.
E tudo que vem de lá
É fonte para o poeta
Que nu’a linguagem discreta
Sempre ao povo falara.


Fortaleza, 17/11/88 com atualizações em março de 2001

BIBLIOGRAFIA

LUYTEN, Josefh M. A NOTICIA NA LITERATURA DE CORDEL (Tese apre­sentada ao Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo), São Paulo, 1984.
VV.AA. POESIA, CANTADOR E VIOLA, (Curso de Cantoria Popular), Im­prensa Universitária da Universidade Federal do Ceará,1980.
BEZERRA DE MENEZES, Eduardo D., PARA UMA LEITURA SOCIOLÓGICA DA LITERATURA DE CORDEL, in Rev. de Ciências Sociais, Vol. III, nos. 1 e 2,Imprensa Universitária da Universidade Federal do Ceará, 1977.
SOUZA, Manoel Matusalém, Pe.. A IGREJA E O POVO NA LITERATURA DE CORDEL, Edições Paulinas, São Paulo, 1984.
LOPES, José Ribamar - org. LITERATURA DE CORDEL; antologia. 2.ed. Fortaleza, BNB, 1983.
MENEZES, Fco. Otávio. O PADRE DE VIROU MULHER - depoimento completo. (folheto de cordel), edição do autor, 1988.
PESSOA, Sá de João. A VITÓRIA DE TANCREDO NEVES. - folheto de Cordel, edição do autor, 1985.
VIEIRA, Guaipuan. INFERNO NO BANFORT - cinco horas de terror, coleção CE­CORDEL-9, .(folheto de Cordel), ed. do autor, l987.