A POESIA DE HERMES VIEIRA
(Antologia poética piauiense - J. Miguel de Matos. Editora Artenova. Ed.1974. Págs: 157 a 164)



Artur Passos, por desejo de meu coração, que vai abrir, com a pena já divinizada pelo trato das Letras, este canto de "Caminheiros da Sensibilidade", onde vai arrulhar, em trinados de tristeza e de alegria, o poeta folclórico Herdes Vieira, prata de casa, nascido, como João Ferry, na suave Valença, alentada pelas cantigas dolentes do Caatinguinha:
É preciso destacar, outrossim, que a história da literatura ocupa-se de obras concebidas e desenvolvidas por indivíduos identificados e largamente conhecidos, enquanto o folclore, pelo consenso unânime de seus cultores, estuda contos e lendas que não tenham autores individuais; que andam de boca em boca e possam ser qualificados em consonância com determinado número de categorias universais; que nada tenham, na contextura literária, que possa permitir dar-se-lhes autor individual ou particular, nem época, nem origem, e muito menos ainda arbitrária classificação em outras categorias literárias, formando categoria à parte. E se as narrativas de La Fontaine e as de outros tabulistas mais recuados, não obstante a conclusão moral que tenham sob o "véu diáfano da fantasia" e cujos personagens são irracionais que trocam idéias, contendem entre si, exercem atividades sociais e brigam à base do amor; ou se essas narrações de coisas imaginárias, como contos de sereias e de encantamentos, são, em parte, aceitas como matéria folclórica não é pelo conteúdo em si fantástico e puramente imaginário que contêm, mas por conterem, na essência, algo mais que simples fantasias; por guardarem como um relicário restos de crenças e costumes de outros tempos, não passando animais que falam, príncipes encantados e princesas mitológicas formosas como o despontar da manhã, transformadas em aves, às vezes em serpentes, e até em coisas inanimadas, de evidente sobrevivência de antigas divindades, objetos outrora de culto, que o cristianismo. Levou para o campo da superstição e mais tarde para os domicílios da literatura sendo, ainda, um liame que deve ligar e unir por fortes.laços morais o homem da era eletrônica ao dos tempos fabulosos de Prestes João e da Rainha de Sabá".
Fazendo, quase só, a apologia dos vates que caminham nesta obra, pois ela não tem sentido essencialmente critico, não me prendo, por força dessa derivação, ao estudo aprofundado do que o poeta produziu para a vastidão da Literatura, trazendo-o, antes, se vivo, ao conhecimento da geração atual, e, se morto à lembrança ingrata dos que ainda carregam nesta vida, como um Jesus redivivo, o pesado madeiro de seu sofrimento.
Hermes Vieira, a maior expressão da poesia folclórica do Piauí, se chama, por inteiro, Hermes Rodrigues Cardoso Vieira e tem o umbigo enterrado em Elesbão Veloso, município da Cidade de Valença. Nasceu a 23 de Setembro de 1911. É filho de Raimundo Rodrigues Cardoso Vieira e de Joaquina de Sousa Viana, ambos já aliviados, por bondade de Deus, do pesado surrão da Vida. Muito viajado, esteve alguns anos na Amazônia, onde bebeu, fartamente, em cantata com o "Inferno Verde", vivendo na ambiência trepidante e misteriosa daqueles matões Envios, o néctar que, mais tarde, na tropicalidade de sua terra natal, iria destilar para o acervo cultural de seu povo.
Como Giovanni Papini, Machado de Assis, João Ferry e tantos outros que a memória teima em esconder, Hermes Vieira, enfiado no ventre das noites, acolitado por livros de capas gastas e à vaga claridade de lamparinas fumacentas, é cultura autodidata, que, para algum anelado, pode constituir mancha na luz ofuscante que os seus pés vão deixando nos caminhos que percorre, sustendo a Lira e padejando o verso.

"0 Órfão Caboclo" abre este trabalho sobre o poeta de Elesbão Veloso, e o leitor vai sentir, mesmo que tenha o coração de pedra, que canto de amor há em seus versas, ditos na linguagem de quem sabe apenas sentir, na gramatização violenta e nativa que o caboclo, livre como um passarinho, vai deitando nas veredas, nas ruas, nas clareiras e nos bordéis improvisados, de que está cheio o sertão:

 

"Faz dez ano qui eu nasci,
e seis faz qui me intindi;
E dos seis então pra cá,
Sem perde nenhum insejo,
Noite e dia, alegre vejo
Tanta coisa d'incantá:

 

Vejo os lago e vejo as fonte;
Vejo os morro e vejo os monte;
Vejo os campo e os matagá,
Os serrote e as colina,
Tabuleiro e as campina,
E as cascata saluçá;

 

Vejo alegre a passarada;
Vejo as báxa fulorada;
Vejo as lindras brobuleta,
Báxa a riba e báxa abáxo,
Sacudindo os leves cacho,
Das bunina e violeta;

 

Vejo as nuves azulada,
Pur'os vento carregada
Neste ispaço co de ani;
Cumo um pranto de Maria,
VeJo as chuva clara e fria,
Lá do céu no chão cai;

 

Vejo vim do chão moiado
Tudo quanto foi prantado
Pur'as mão do lavrada;
Também, vejo vim os matim,
Semiado cum carim,
Pur'as mão do Criadô;

 

Vejo o Só morre dorado;
Vejo o céu azu istrelado;
Vejo a lua dispontá
Pratiada sobre as serra,
Istendendo cá na Terra,
As tuáia de luá;

 

Vejo as fria madrugada;
Vejo o branco d'arvorada;
Vejo a d'Arva aparece;
As manhã vejo raiá;
Vejo o dia clariá;
Vejo o Só de oro nasce;

 

Vejo pai, vejo irmão,
Entre nos vejo união;
Vejo a casa onde nasci...
Mas o meu maia desejo
D'inxergá, porém num vejo,
É mamãi, qui eu nunca vi !"

 

Segundo Hermes: “Há uma lenda muito conhecida, notadamente nos arrabaldes do Nordeste, batizada pelo sabor do zé-povinho de "Mãe-da-Lua", "Chora-Lua" ou "Urutau". É uma ave noturna de canto dolente e entrecortado, dando, a quem tem o ouvido preso aos seus trinados de tristeza, a impressão de uma gargalhada melancólica de quem disfarça a acrimônia de uma angústia.”
Em "Lamentos de Mãe-da-Lua", Hermes Vieira, forjicando uma grafia adrede e cuidadosamente estudada, põe nos lábios do leitor a pronúncia real do caboclo, no seu desleixo lingüístico e na sua conhecida preguiça mental:


"No sertão, nos matagais,
Quando vai no céu a lua
E nas fontes cristalinas
O luar meigo flutua,

Um silêncio agreste e doce
Deixa tudo extasiado;

Pelo espaço enluarado.


E uma voz dolente ecoa

Essa voz que dissimula
Uma dor a gargalhar,
É notória no sertão
Pelas noites de luar.

 

É a voz da Mãe-da-Lua
A chorar o ausente esposo
Que, segundo afirma a lenda,
teve um fim misterioso.

 

Era um pobre lenhador;

Certa vez, indo lenhar,
Por motivo inexplicável,
Não voltou mais ao seu lar.

 

Mãe-da Lua, em desespero,
Coração angustioso,
Atirou-se pelas brenhas
A procura do esposo.

 

Andou muito, mas, debalde:

O marido não encontrou,
E por isso nunca mais
A cabana ela voltou.

 

E depois, num ramo nu,
Sob um manto de luar,
Outras aves encontraram
Mãe-da-Lua a soluçar.

 

Não querendo a infeliz ave
Pelas outras ser zombada,
Logo o pranto simulou
Numa triste gargalhada.

 

E num galho, solitária,
Mergulhada no luar,
Ela ainda continua
Com seu triste gargalhar.

 

Como oculta a Mãe-da-Lua,
Gargalhando os seus tormentos,
Muitos riem, assim também,
Ocultando os sofrimentos".

 

A pavorosa seca de 1932, com seu manto de desgraça, arrastou para a miragem do vale do Itapicuru, que corta as entranhas ubertosas do Maranhão lírico e sentimental, dois personagens que inspirariam, no correr dos dias, ao poeta folclórico Hermes Vieira, versátil e fecundo, a sua mais imortal produção literária. Chamavam-se esses dois personagens de Hermes: Piroca e Loló, ele vindo de Pernambuco e ela do Rio Grande do Norte. Apaixonados ao primeiro raio do olhar esbraseado pela paixão, amaram-se no primeiro encontro, ali adiante o Itapicuru coleando e gemendo no tumulto de suas águas. Mas o destino, pela mão dos pais de Loló, meteu-se entre aqueles dois jovens corações para angustiá-los. Piroca, distante de sua bem amada, metia-se na cachaça —"água que-gauinumbi não bebe"—para afogar as tristezas que a saudade de Lolô ia Ihe cravejando no coração. Certo dia— lá vem o certo dia de cada vida! — Piroca, distendendo a vista pelas margens do Itapicuru, vislumbrou, na face inquieta das águas, a figura morena de sua amada frisando a linfa com as diabruras de seus dedos, Loló, afogueada pelo olhar ardente de Piroca e querendo fugir da calidez que Ihe incendiava o coração apaixonado, faz das águas um imenso lençol para esconder a beleza e a virgindade de seu corpo.
O corpo inteiramente engolido pelas águas do Itapicuru e a cabecinha aparecendo vagamente à flor da corrente liquida, Loló provoca o diálogo que Hermes Vieira batizou com o nome de "A Falsa tara":

 

" Seu Piroca, eu vou já contá papai,
Qui você, de marcado, me viu nua!

 

Tá brincando, Lolô, qui tu num vai
Ispaiá tá conversa pula rua!...

 

Eu num vou?!... Pois num vá se apreparando
Pra se te cum papai ou cá mamei!...
Num vá, não!... Quê qui que você oiando
Eu dispida, seu nojento, tomá boi?...

 

Ai, Loló, vou contá pruquê cá vim,
Qué pratu num cuidá qui foi mardade...
Apois bem, todo o causo foi assim...
Tenha carma e me sunte esta verdade:

 

Muitos conta qui sai dos sêi das água,
Certa moça tão lindra de incantá,
Qui se chama de iára ou de mãe-dágua,
E tem ela um palaço singulá.

 

No momento qui sai do seu palaço,
Se abiserva qui as água e os peixe pára;
Lá de fora se cala logo os passo;
E grita os pescada: "Lá vem a lára! "

 

Ela, intão-se, aparece bem formosa
Cum seu corpo bem arvo e toda nua...
Dê pru vista no céu, quando sodosa,
Vem subindo, subindo, a branca Lua...

 

Tem siás face tão lindra cumu o dia .
Quando rasga da noite a preta sáia;
E seus óio tem tanta maravia
Cuma d'Arva nos máre quando ráia.

 

Seus cabelo são grande cumo os fio
Qui se tira dos pé de caruá;
E purisso, somente, num tem frio,
Pois faz deles lençó pra se imbruiá.

 

Tem seus láibos fazidos de carmim,
Perfumados de amo, de sedução;
Seu prefume é de frô de bugarim,
Das abrida nas noite de verão.

 

E siá voz é tão doce cumo o mé
Qui se incontra nos favo do urussu;
E arguém diz qui de lindra imita inté
Cum o sedoso canta d'uirapuru.

 

Seus dois sei são dois fruto num só gái,
Dos qui fica agrudado na madêra,
Qui balança, sacode, mas num cái,
Mas são fruto qui mermo verde chera...

 

E ela, intão, purriba assim da frô,
Da frô dágua, se fica sem move;
Desse jeito ela atrai o pescada,
Qui vai indo im seu rumo sem querê.

 

Foi purisso, Lolô, qui mi atrivi
Incostá mia canoa onde tu tava,
Cuidando qui tu era (nunca vi!)
A Mãe-dágua, Lolô, qui mi chamava...

 

— E tu gosta... Piroca, deu, tu gosta?
— Eu ti juro, Lolô, pur todo o santos
— Pois, então, toda a tarde tu incosta
Tua canoa, benzim, neste recanto. . . "

 

A poesia folclórica, por sua originalidade, pelo sabor ativo de sua narração, pela agressividade da linguagem, pela ardência do verbo matuto, tem o gosto daquela ceia servida no Saco da Braba, destes cafundós do Piauí, nos versos matutos de Hermínio Castelo Branco:

 

"Cada qual, com sua faca,
de cócras junto à panela,
foi tirando com a cuia
que servia de tijela,
e despejando a farinha
na coalhada, dentro dela".

 

"Misturando a carne assada,
gorda, frescal e cheirosa,
todos ficaram contentes
com a ceia apetitosa:
nem no Céu nunca se viu
comida tão saborosa".


Não seria, narrando em rápidas pinceladas a poesia folclórica de Hermes Vieira, que este autor olvidasse o sentido nativo dos versas do poeta de Valença, tendo no coração a imagem da terra natal, osculada no inverno pela água das chuvas que despencam do Céu fragmentadas e cristalinas, e abrasada nos estios pelos raios de fogo do sol.
E o soneto "Piauí" saiu da forja do poeta, nestes versos que o coração não pode reter na sua sensibilidade e nos seus arcanos:

 

"Teus montes, as montanhas e as colinas;
Teus vales ubertosos, florescentes;
Teus campos matizados, sorridentes;
Teus brejos fabulosos de águas frias;

 

Teus rios, tuas fontes cristalinas;
Teus lagos pequeninos, transluzentes;
Teus bosques perfumados, viridentes;
Teus belos chapadões e as campinas;

 

Teus ricos e pomposos estendais
De flores e de frutos naturais;
De lindas borboletas multicores;

De ledos e canoros passarinhas,


São tudo para mim dourados ninhos,
São bálsamos que acalmam minhas dores!"


Este é Hermes Vieira que Valença, pela data de Elesbão Veloso, deu ao Piauí. Um presente de raro valor, uma luminescência de ofuscante brilho, uma luz de embevecente claridade!

A POESIA FOLCLÓRICA DE HERMES VIEIRA


(Do livro Canta Cordel - Guaipuan Vieira)
Foi o acompanhando nas pescarias das lagoas adjacentes dos rios Poty e Parnaíba e nas caçadas em noites enluaradas que aprendi a gostar de sua poética e admirá-lo muito mais.
Constituía tudo isso em pano de fundo para que nos jogos sutis do raciocínio aflorasse a espontânea, habilidosa e atraente poesia,na linguagem expressiva do homem do campo .
Na construção dos versos , observa-se a eficácia de estilo próprio, fruto de criação inata, que da escola da vida o tornou autodidata.
Da mágica e do imprevisto, sua poesia brotava, celebrizando o folclore de sua região :

 


" Vosmincê, doutô, conhece,
Ou já viu falá no nome
Desse bicho qui aparece
Nos camim quando anoitece,
Qui se chama lubisome" ?!


Nesse cantarolar de estrofes e versos , herdeiro de vocações do homem sertanejo , traduz a expressão ingênua e resignada do sofrido homem do campo, que para amenizar as agruras da vida, carrega no bornal da esperança o terço da fé:



" E o mais triste, seu doutô
Pra nóis pobe fregelado
Si acabando aqui e ali,
É si sê fíi dum Brasi,
Dum Brasi civilizado,

Dum Brasi riligioso
Dum Brasi de tanto nome
Dum Brasi tão rico e forte
Dêrna o Su até no Norte
E morrê gente de fome !!!

 


A poesia de meu pai brotava dessas circunstâncias ,que na visão dos acadêmicos ,como J. Miguel de Matos , é " a maior expressão da poesia folclórica do Piaui". Arimatéia Tito Filho fez uma análise aprofundada do lirismo de Hermes Vieira quando disse " (...) abrangendo aspectos da vida e da natureza , psicologia das gentes,bichos, episódios amorosos e trágicos, alimentos, cerimônias, amores escondidos, mitos, lendas , superstições, doenças, músicas e anedotas" . O professor Josias Clarence Carneiro da Silva também reconheceu a poética : " ...o mundo fantasioso de Hermes Vieira é uma colcha de retalhos da vida campestre ..." . O professor e escritor Cineas Santos, quando na apresentação do livro PIAUI SERTÃO , desse poeta decantado , fez uma síntese da obra em verso :

 


"Quem conhece o Piauí,
Quem já viveu no sertão
Ao ler os versos de Hermes,
Sente brotar emoção
Calada, adormecida,
Nas brenhas do coração."

 


Na capital alencarina , o professor de literatura Gletson Martins , conhecedor da bagagem literária de meu pai , afirmou : "... representa os valores da nossa cultura popular. Sua poesia , repleta de figuras e flagrantes do cotidiano nordestino , exalta a beleza dos costumes do homem do campo, sem perder as sutilezas tão difíceis de retratar em uma obra de arte. (...) Grandes os homens que sabem captar o sentimento intuitivo que emana da arte , principalmente se a mesma se encontra em seu estado natural nos costumes de um povo, com suas tradições, crendices".
O poeta e jornalista Zózimo Tavares, em artigo publicado na revista DE REPENTE, de Teresina-PI, faz alusão ao saudoso poeta folclorista e indianista: " a poesia popular nordestina perdeu em 17 de julho passado uma de suas principais expressões, o piauiense Hermes Vieira. Ele morreu em Fortaleza, ao 89 anos, e foi sepultado em Teresina. O poeta está para o Piauí como Patativa do Assaré está para o Ceará. Com uma diferença: não foi cultuado por nós, como Patativa é, como muita justiça, pelos cearenses".
O poeta e professor piauiense, residente em Fortaleza, Gerardo Carvalho Frota(Pardal), Em versos saudou o inesquecivel poeta:

 


" Fiquei muito impressionado
Quando li Hermes Vieira
É um poeta popular
Que traz em si a verdadeira
mais legítima expressão
Cravada neste Sertão
De uma cultura altaneira.

Eu com seu conterrâneo
Me sinto muito orgulhoso
Pena que pessoalmente
Eu não tive o precioso
Prazer de ter conhecido
Hermes Vieira e sentido
Seu poetar valioso .

Como aqui no Ceará
Tem a voz do Patativa
No Piauí também tem
Uma voz forte e ativa
Que cantou a vida inteira
O poeta Hermes Vieira
Que se manterá bem viva .

Nosso Piauí perdeu
Um poeta de valor
Da poesia piauiense
Ele foi o embaixador
Pra continuar seu brilho
Que pro Guaipuan seu filho
Continue inspirador".


Câmara Cascudo disse que : " como prosódia popular do verso claro e ágil , Hermes Vieira reúne evocações de figuras e paisagens regionais, dando um ramalhete em que a alma nordestina vive como um perfume ." E conclui :" uma inteligência observadora e sagaz, manejo fiel do vocabulário certo, emoção ao recriar os temas que pertencem ao patrimônio regional. Ele transmite às mentes distantes o feitiço de sua terra e de sua gente."
A reflexão da crítica literária desperta-nos com ênfase a perspectiva de um novo estudo – a linguagem do verso caboclo sob diversas nuances - em sua poética. Além de contribuir para a preservação do patrimônio lingüístico de um povo, a obra resgata sutilezas fonéticas bem regionais .
Dispensam comentários os vários estudos que abordam a obra desse vate piauiense:


 

TROVADOR DE ROÇA

Eu sou fio do alto do sertão
Fui vaquêro e tombém fui caçadô.
Na viola, chorando no meu peito,
No terrêo, ao luá, fui trovadô.

Muitos tôros bravio na caatinga
Com o aboio sereno eu dominei;
Muitos brabo e rebelde coração,
Na viola, ao luá, eu conquistei.

Muitos tigres valentes, na floresta,
Abati cum sertêra pontaria;
Muitas fera de saia de argudão
Dominei cum as minhas canturia.

É qui um dia, caçando num forró,
Atirei bem no zói de meu afeto;
Desse tiro hoje vejo im meu redó
Quinze fio e noventa e nove neto.

 



NORDESTE
( Do Livro "Poemas Nordeste")

"Meu Nordeste feiticeiro,
Morenão de bronze o peito,
Genuíno brasileiro,
Eu me sinto satisfeito
Em ser filho de um teu filho
E no chão por onde trilho,
Que venero com respeito.
Meu Nordeste das moagens
Nos engenhos de madeira,
Dos açudes, das barragens,
Da lavoura rotineira,
das desmanchas de mandioca,
Do foguete-de-taboca
Irmão gêmeo da ronqueira.
Meu Nordeste onde os velórios
São rezados no sertão,
E improvisam-se os casórios
(Sem juiz, sem capelão),
Os padrinhos e os compadres,
As madrinhas e as comadres,
Na fogueira de São João.
Meu Nordeste do bornal,
Rifle, bala e cartucheira,
Da "lombada" e do punhal,
da "garruncha" e da peixeira,
Do cacete e do facão,
Com que um cabra valentão
Desmantela festa e feira.
Meu Nordeste em rede armada
(De algodão ou de tucum),
Aguardando a maxixada
Com quiabo e jerimum,
Mel, canjica e milho assado,
Feijão verde e arroz torrado,
Na semana de jejum.

Meu Nordeste a boi de carro...
Carro-de-boi do Nordeste,
Tosco, humilde, simples charro,
Submisso e a nada investe,
Que, arrastando estrada afora,
Range, grita, canta e chora
Ajaujado à canga agreste. (....)

PIAUÍ

Teus montes, as montanhas e as colinas;
Teus vales ubertosos, florescentes;
Teus campos matizados, sorridentes;
Teus brejos fabulosos de águas finas;

Teus rios, tuas fontes cristalinas;
Teus lagos pequeninos,transluzentes;
Teus bosques perfumosos, viridentes;
Teus belos chapadões, tuas campinas;

Teus ricos e pomposos estendais
De flores e de frutos naturais;
De lindas borbuletas multicores;

São tudo para mim dourados ninhos,
São bálsamos que acalmam minhas dores !
De ledos e canoros passarinhos,

CARRO - DE - BOI

Carro véio de boi, purque tu geme
E lamenta siguindo o teu camim?
É purque tu vai indo assim puxado,
Conduzindo esse fardo tão pesado,
Qui tu geme e lamenta tanto assim?

Carro véio de boi, neste momento,
Cuma tu qui lamenta, geme e chora,
Cunduzindo outros fardo bem pesado
Pur camins turtuoso, imbaraçado,
Tombém muitos vão indo mundo afora

Eu bem sei qui tu sofre, sem tê curpa,
Uma dô pur'o peso qui condúiz,
Mais, ti alembra qui o Fio de Maria,
Padecendo tombém tanta agunia,
Sem tê curpa, arrastou pesada crúiz.

E eu tombém,cuma tu,meu carro véio,
Arrastando e sofrendo ím meu camim,
Vou levando mil saca de amargura
Pra butá no paió da sipurtura,
Cedo ou tarde, onde ispero isto tê fim.

E purisso, tem carma e vai siguindo
Teu camim, padecendo conformado:
Foi sofrendo, cum carma, qui Jesuis,
Adispois de cravado numa crúiz,
Pur'o mundo vem sendo festejado.


LAMENTO DE UM RETIRANTE ÓRFÃO

Seu doutô, vosmincê tá bisservando
Bem prali, mais pra lá desses lagêro,
Uma cova e uma crúiz já disbotando
Bem pertim desses pé de mamelêro ?

Apois é nessa cova, meu patrão,
S'apagando e cuberta de capim,
Quase nu, sem mortáia e sem caxão,
Onde tá sipurtado meu paizim.

Vê tombém essas outas piquinina
Onde o só tá bejando cum seus rai ?
São dos meus rimãozim,-Bento e Cristina,
Qui morrero do jeito de papai.

Foi a seca, esse monstro do Nordeste,
Qu' iscanchada num só devoradô,
Cunduzindo um surrão de fome e peste,
Meus trêis entes quirido aqui matou.

Vivo só cum mamãi, pobe e duente,
Supricando do povo a cumpaxão;
Mais porém, muntos somba e ri da gente
E nos dão disigano im vêiz de pão.

E o pió disso tudo, cá pra mim,
É si vê passá era e chegá era
Intregando pra muntos leite e vim,
E pra nóis sofredô, fome e miséra!

Muntos diz qui o Guverno sempre dá
Uma ajuda pr'aqueles qui têm fome;
Mais porém, quando a ajuda sai de lá,
Outa Seca pió lhi agarra e come !

Quando chega os momento d'inleição,
As premessa têm chêro de alimento;
Mais,dispois, junto o vento elas si vão,
E nóis fica no mêrmo sufrimento!.

"Eis os versos de meu pai,
Que decantam o meu Nordeste
Daquele caboclo astuto
Chamado cabra da peste;
Que enfrenta seca e fome
Mas não renega o seu nome
Nem mesmo por simples teste."

 

 


HERMES VIEIRA, O EMBAIXADOR
DA POESIA POPULAR PIAUIENSE


Glétson Aguiar Martins(*)
A obra do indianista e folclorista piauiense Hermes Vieira representa os valores da nossa cultura popular. Sua poesia, repleta de figuras e flagrantes do cotidiano nordestino, exalta a beleza dos costumes do homem do campo, sem perder as sutilezas tão difíceis de retratar em uma obra de arte.
O dia 17 de julho de 2000 significou àqueles que valorizam a cultura popular um luto inesquecível não pela morte física desse vate piauiense, mas pelo raro valor que representa sua poética.
Grandes os homens que sabem captar o sentimento intuitivo que emana da arte, principalmente se a mesma se encontra em seu estado natural nos costumes de um povo, com suas tradições, crendices.
Na visão de seu filho, Guaipuan Vieira, também seguidor dessa tradição poética que, acima de tudo, o popular é levado a sério, " a morte do poeta é uma visão sintética; é uma realidade circunstante, transcendental; o seu lirismo é mais lírico e narrativo, deixando lugar para meditação".
Mesmo tendo partido, é um dever dos PIAUIENSES, amantes dessa arte, reconhecer com vigor a rara poesia de Hermes Vieira.
*Prof. de Literatura

 


A FLÔ DE PILÃO CAIDO
Hermes Vieira
(Parodiando as frô de Jaramataia, de Napoleão Meneses - Musicado por Guaipuan Vieira)

Três muié, três cão vestido,
Três cabocas das prefundas
Tem na casa da Reimunda,
No lugar Pilão- caído.

A primêra dela é
Mais quilara e mais sumena,
Mimosa frô de açucena,
Qui os povo chama Izabé.

A segunda, a Conceição,
Tem um zói que é taliqua
Dois mourisco no alçapão,
Dois arisco barbatão
Na purtêra do currá.

A terceira é Zizique,
Seu corpim num tem defeito
A mode qui tráis nos peito
Dois frutim de xiquixique.

Dois frutim chega um home,,
Num tendo mais de noventa
Com os chêro delas na venta,
Quando ela passa da fome.

E agente fica sentindo
Vendo aquelas fro jogada
Naquela casa isolada
No lugá Pião- caído.

Mais, si a mãe quizé qui eu fique
Cá mais belas delas trêis
Eu me agarro duma vêiz
Cá dona dos xiquexique.

Teresina(PI),20/08/1948

 


UM SONETO AO POETA HERMES VIEIRA


O sertão do Piauí trouxe a vertente-
De um rio que deságua sobre o mar.
Um Vieira,o Hermes do repente,
Trovador e poeta popular.
Folclorista de verso consistente
A Amazônia contou por muito amar.
Curtidor de couro competente,
Deu seus versos pro mundo contemplar.

Tu és imortal Hermes Vieira,
O Piauí te dá comenda rara.
Lá tu tens nome de rua alvissareira,

Menestrel da Fazenda Caiçara.
Tu fizeste da poesia companheira
Do Nordeste,fizeste tua cara.

Luiz Costa Farias (O Rouxinol do Nordeste)