Cordéis Infantis

 

 

A  EDUCAÇÃO  PELO  VERSO

Crianças descobrem a Literatura de Cordel e são estimuladas a produzir suas próprias rimas


"Agora eu vou falar
De um mundo fácil não
Tô falando do Brasil
E da nossa educação
Tô falando da escola
E da alimentação(...)

Onde está nosso governo
E a sua obrigação ?
Fazendo poucas escolas
Cadê a educação ?
Sem ajudar as crianças
É muita preocupação".


Claro, as sextilhas acima não são de nenhum Patativa do Assaré mas nem por isso deixam de chamar atenção ou mesmo de encantar, principalmente quando fica-se sabendo dos ingênuos dez anos de seu autor. Isso mesmo: o pequeno Rafael Nepomuceno Oliveira mal tem uma década de vida e já confessa empolgado seu deslumbre com a literatura de cordel, transformando em métrica a espontaneidade de suas impressões e tomando consciência do lastro histórico dessa que é uma das mais importantes manifestações da cultura popular nordestina.

"O cordel é uma das raízes do povo do Ceará e do Nordeste. Ele tem rima. É uma coisa bonita, que a gente vai aprendendo, vai pensando a sextilha, a métrica", explica. E Rafael não é o único. Como ele, são mais dezenas de colegas de classe que também abraçam o universo do cordel. Através de um trabalho que, segundo o Centro Cultural dos Cordelistas do Nordeste(Cecordel), é pioneiro entre as escolas de Fortaleza, o Instituto Educacional "O Canarinho", uma pequena escola na Aldeota, estimula em seus alunos da quarta série do ensino fundamental a descoberta,a valorização e a produção de pequenas peças de cordel. "A gente sabe que existem pessoas que não sabem o que é o cordel, porque não é uma coisa privilegiada na mídia. Então nosso objetivo é construir esse conhecimento, valorizando nossa cultura e trabalhando a leitura de uma forma gostosa", explica Margareth Mota Lima, uma das professoras envolvidas no trabalho.

Segundo Margareth, a reação das crianças ao tema tem sido a melhor possível. "Elas gostam da informação,do lado lúdico do cordel. Mas é a rima que mais lhes fascina", diz. De fato, conversando com as crianças, percebe-se que é na cadência da contagem dos dedos que elas vão apurando o ouvido e desenhando na métrica impalpável da imaginação o seu fascínio pela literatura secular do sertão. "As rimas são engraçadas, elas têm som, parece que têm música", fala a pequena Laise Mota Torres. "Se você tem que dizer alguma coisa, informar alguma coisa, é muito mais legal quando você coloca na forma de cordel,como o cordelista se expressa. É uma coisa muito interessante, o ritmo é empolgante", reforça a amiga Isabela Navarro Lima. "Muita gente não dá valor. Quem dá mais valor é o Nordeste. Tem quem pensa que isso não vai servir para a vida da gente, mas é assim que a gente consegue resgatar nossa cultura",complementa o próprio Rafael.

Segundo Margareth, numa época em que as informações são disseminadas de uma maneira vertiginosa, há que se estimular entre os alunos a criticidade para que eles se situem entre os diferentes conhecimentos correntes. "Essas crianças precisam saber quem elas são, qual a cultura que lhes pertence. E para isso elas precisam ser estimuladas a ter esse conhecimento", afirma. "É a maior recompensa nesse sentido é quando você percebe o cordel, de onde veio o nome, como ele chegou aqui, o que ele representa na nossa história".

"Em quase todas as escolas de Fortaleza existe o ensino da literatura de cordel, e isso é muito bom. Várias desenvolvem trabalhos louváveis. Mas no canarinho, o método é diferente porque o estímulo aos alunos é constante e isso faz com que alguns deles passem a escrever a poesia de cordel espontaneamente", confirma Guaipuan Vieira, presidente-fundador do Cecordel. Desde a fundação do Centro, em 1987, Guaipuan já percorreu escolas e universidades participando de palestras,gincanas e debates sobre cultura popular e sobre a literatura de cordel. "Iniciativas como essa são muito importantes porque, além do aspecto pedagógico, as crianças recebem o estímulo para a preservação do cordel", defende. "As crianças são a posteridade. É para elas que nós estamos repassando essa tradição que é tão nosso".

Fonte: Jornal Diário do Nordeste. Caderno 3- Fortaleza,CE-Terça-feira,09/11/1999.

 

CORDEL
Pendurado no cordão     

 

Bem no fim da rua Nova Conquista, uma pista de barro vermelho com muitos buracos no bairro Bom Jardim, tem um lugar tranqüilo cercado por um muro branco.

Eleuda de Carvalho
da Redação



É a Escola Emanuel. De longe, vozes de crianças brincando, porque chegamos bem na hora do recreio.

A Escola Emanuel é um bocado diferente de outras escolas da periferia. Aqui tem merenda escolar, tem sala de computador (com dez computadores!), biblioteca, e no pátio tem até uma casinha-escorrega de madeira pra garotada se divertir. Outra coisa bem diferente é que os alunos da professora Sharleny Vieira estudam e aprendem a fazer poesia de cordel, também chamado de folheto. No dia que a gente foi lá, a turma estava preparando cordéis muito especiais: era o presente deles para o Dia das Mães.

A professora Sharleny é filha do poeta cordelista Guaipuan Vieira. A idéia de dar aulas utilizando o cordel é uma ''herança de meu pai'', disse. Há três anos, ela criou o projeto Clube do Cordel, do qual participam alunos de 6 a 14 anos. Até mesmo quem já saiu da escola vai lá toda terça-feira, para aprender um bocadinho mais sobre esta arte antiga, que chegou ao Brasil nas caravelas de Pedro Álvares Cabral.

Sharleny, no começo, ensinava ciências. Com o cordel, ela diz, ''achei de trabalhar de maneira diferente''. Daí surgiu o folheto Sistema Solar em Versos, dos alunos Átila de Sá e Wilton Lima, publicado em agosto de 2002.

Primeiro, eles fazem o folhetinho à mão: escrevem a poesia, desenham a capa. A professora corrige, acerta as rimas. Depois, eles vão para o computador. ''A gente tem que acompanhar a modernidade mas sem perder a originalidade'', afirma Sharleny.

 

Nas páginas do cordel, cabe o mundo todinho

 

 

Coisa do tempo do vovô: as crianças de antigamente aprendiam a ler, escrever e contar em livrinhos no formato dos folhetos. As cartilhas de ABC e as tabuadas também ficavam penduradinhas em varais nas bodegas ou nas feiras. O tempo passou, veio a tevê, a internet, mas a magia dos folhetos, com histórias inventadas há muito tempo ou com notícias que acabaram de acontecer, continua seduzindo velhos e novíssimos leitores. O cordel tem a força!

Wilton Lima, 11 anos, está na 5ª série. O que você mais gosta de trabalhar em cordel? ''É das rimas. Foi um talento que Deus me deu e eu uso. Quando eu sento, tranqüilo, aí vêm'', diz. Da biblioteca da escola, ele já leu os romances Senhora, de José de Alencar, e Luzia Homem, de Domingos Olímpio.

Priscila Rodrigues também tem 11 anos e faz a 5ª série. Ela estuda na Escola Emanuel desde pequenininha: ''A gente aprendeu a ler na alfabetização'', diz. E não parou mais. O cordel de que ela mais gostou chama-se Lula, um operário no poder, que conta em versos a história do nosso presidente.

Leila Santos Vieira, 11 anos, 5ª série. Ela faz parte do Projeto Cordel desde o começo, e adorou os folhetos desde que leu a história de Aladim, escrita por Patativa do Assaré, que é considerado o maior poeta popular do Brasil. Ela é tão criativa na arte de rimar que até já ganhou um concurso de poesia!

Átila Sá, 10 anos, também estuda na 5ª série. Ele escreveu dois dos quatro folhetos lançados pelo Projeto Cordel, e também gosta muito da leitura. Da biblioteca da escola, ele leu o romance Ubirajara, de José de Alencar, e o livro de aventuras Viagem ao Centro da Terra, do escritor francês Júlio Verne.

No pandeiro

Márcio Rafael Martins, 14, aluno da 6ª série, e Elvis Micena, 11, também da 6ª, fizeram uma apresentação de embolada para a nossa reportagem. Enquanto Márcio batia o ritmo no pandeiro, Elvis cantou o poema sobre Antônio Conselheiro, escrito por Guaipuan Vieira.

Para ajudar

As aulas de cordel acontecem na biblioteca da escola. Todos os livros foram doados (assim como os folhetos). Eles tem muita coisa boa lá, mas ainda é pouco para o gosto de leitura das crianças. Quem quiser doar livros e revistas, pode ligar: o telefone da Escola Emanuel é o 497 1452

 

 

 

DIA DA CRIANÇA EM VERSOS
Autor: Atília Sá ( 10 anos)

Para quem não me conhece
Vou então me apresentar
Sou poeta cordelista
Me chamo Àtila de Sá
Eu criei este cordel
Para apenas te alegrar.

Hoje é um dia especial
É um dia bem feliz
Com muito auto astral
Pra crianças do país
É um dia bem legal
Como nunca ninguém quiz.

Preste muita atenção
Porque eu vou explicar
A vida dessas crianças
Que não param de falar
Moramos nesse país
Com todo gosto da vida
Tomando banho de mar.

Se preparem minha gente
Se preparem pra essa dança
Hoje é doze de outubro
É o dia da criança
Mas um ano que se passa
Pra essa gente de esperança.

Quando a gente é pequeno
Se protege com dois peitos
Quando a gente cresce
Nós temos nossos direitos
E a gente continua
Por caminhos bem estreitos.

Digam para os seus filhos
Logo eles tem que saber
Eu aviso para os país
Que eles tem que nos dizer
Nos dizer como é a vida
Pois nós temos que viver.

A vida caminhando certo
Tomando seu rumo real
Os adultos me perdoem
Mais ser criança é legal
E nada melhor na vida
Do que um bom auto astral.

Hoje eu quero ser feliz
Hoje eu não penso em nada
Comemorando meu dia
Hoje eu pego a estrada
Vou pra um safari bem bonito
Ver passar uma manada.

Hoje é só brincadeira
Hoje não vou pra escola
Eu vou pra um campinho
E fazer um gol com a bola
O vencedor ganha uma fruta
Eu só quero carambola.

Esse mundo que nós traz
Uma nova esperança
Esse mundo que nós faz
Uma bela de uma criança
O mundo seguindo em paz
Com a nossa confiança.

Agora eu vou contar
Uma nova novidade
Quando eu era bem pequeno
Uns três anos de idade
Maltratavam as crianças
Que moravam na cidade.

Hoje a vida me ensina
O tal modo de viver
Com meus pais me ajudando
É mais fácil aprender
Agora é muito fácil
Pois não tenho sofrer.

Minha gente ó gentinha
Leia esse documento
Aqui você aprende a ler
E integra ao pensamento
Me respeite por favor
Ou vai parar no julgamento.

Respeite os nossos direitos
Não queira se incriminar
Existe uma idade mínima
Para a gente trabalhar
Depois dos 18 anos
Que vamos-nos sustentar.

Tenho um apelo para os pais
De todo o meu coração
Toda vida na infância
Tem direito a diversão
Também temos de estudar
Para nossa educação.